Pesquisa identifica práticas que ajudam redes de ensino a melhorar a aprendizagem em Matemática
Segundo o Saeb (2025), metade dos estudantes da rede pública brasileira conclui os anos iniciais do Ensino Fundamental sem aprendizagem adequada em Matemática. No entanto, um grupo de redes municipais têm se destacado por conseguir resultados significativamente superiores à média nacional. É o que revela o estudo Matemática para a vida: o que experiências nacionais nos ensinam e o que precisamos desenvolver, realizada pelo Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede) e pela B3 Social, com apoio da Fundação Lemann. A pesquisa, lançada nesta quarta-feira (7) no auditório da B3, em São Paulo, se debruçou sobre as estratégias empregadas por alguns desses municípios para identificar quais políticas, práticas de gestão e estratégias pedagógicas contribuem para esses bons índices.
A análise conjunta das evidências mostrou que os resultados apresentados pelas redes não podem ser atribuídos a uma prática isolada ou a uma estratégia específica, mas sim a um conjunto de políticas e práticas que, quando articuladas, favorecem a aprendizagem. Ao mesmo tempo, o estudo evidencia que mesmo as redes que se destacam nos anos iniciais ainda enfrentam desafios importantes, podendo ampliar as oportunidades de aprendizagem matemática dos estudantes, especialmente no desenvolvimento de competências mais complexas, como experimentação de estratégias, argumentação e resolução de problemas.
Apesar das diferenças de contexto, porte e localização geográfica, essas redes compartilham práticas essenciais que, bem feitas, fazem diferença, mas estão longe de estar garantidas em todo o país. Entre os principais fatores identificados como recorrentes e articulados nas redes com bons resultados em Matemática, podemos destacar: 1) currículo alinhado à BNCC; 2) materiais e recursos pedagógicos coerentes com esse currículo; 3) formação de professores com foco em metodologias e conteúdos disciplinares (com especial destaque às formações entre pares); 4) avaliações que produzam informações úteis pedagogicamente e para a gestão das redes; 5) acompanhamento pedagógico estruturado; 6) atuação qualificada dos coordenadores pedagógicos; e 7) garantia do tempo de aula. Mais importante do que a existência isolada de cada elemento, destaca-se a coesão entre eles, que deixam de ser políticas paralelas e passam a compor um sistema coerente de apoio ao trabalho das escolas e dos professores.
O estudo também aponta desafios, como a formação específica em matemática e metodologias matemáticas para os anos iniciais, a sobrecarga das equipes técnicas, a dificuldade de manter a continuidade das ações e a promoção da equidade no ensino de Matemática.
“Todas as avaliações de aprendizagem, nacionais e internacionais, apontam um cenário do Brasil pior em Matemática do que em linguagens. Há desafios que vêm da base, desde a Educação Infantil, e ligados a poucas oportunidades e incentivos para a aprendizagem da Matemática fora da escola. Logo, avançar em Matemática é uma das principais urgências educacionais do país. Que passa por várias ações, sendo que aprender com o próprio Brasil é uma delas. Há redes conseguindo bons resultados pelos parâmetros nacionais e suas práticas precisam ser mais estudadas. Essa pesquisa é um esforço nessa direção”, diz Ernesto Martins Faria, diretor-fundador do Iede.
Metodologia
A pesquisa Matemática para a Vida: o que experiências nacionais nos ensinam e o que precisamos desenvolver foi estruturada a partir de uma abordagem metodológica mista, combinando análises quantitativas e qualitativas. Na primeira etapa, para além de análises ampliadas sobre os dados do Censo Escolar e Saeb, foram selecionadas redes municipais com base em um conjunto de critérios que considerou os resultados no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2019 e 2023, os estudos sobre o tema, a aprendizagem de estudantes em situação de maior vulnerabilidade — como aqueles de baixo nível socioeconômico, pretos, pardos e indígenas —, as taxas de aprovação e a consistência dos resultados no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) ao longo do tempo. A seleção também buscou contemplar diferentes contextos regionais e redes de distintos portes. Ao final desse processo, foram escolhidos seis municípios para a pesquisa de campo, representando as cinco regiões do país: Anicuns (GO), Casinhas (PE), Ji-Paraná (RO), Joaquim Távora (PR), Junqueirópolis (SP) e Miracema (RJ). O município de Cruz (CE) participou como campo piloto para validar os instrumentos e procedimentos metodológicos da pesquisa.
Na etapa qualitativa, os pesquisadores permaneceram cerca de duas semanas em cada município, realizando entrevistas com secretários de Educação, equipes técnicas, gestores escolares, coordenadores pedagógicos e professores, além de observações de aulas e análise de documentos institucionais. A pesquisa buscou compreender como políticas educacionais, práticas de gestão e estratégias pedagógicas se articulam no cotidiano das redes e das escolas, identificando os fatores que ajudam a explicar os bons resultados de aprendizagem em Matemática.
“Pesquisas como esta ajudam a transformar evidências em conhecimento que pode ser compartilhado e aplicado por diferentes redes de ensino, respeitando os desafios e as características de cada território. Ao identificar práticas que contribuem para melhores resultados em Matemática e compreender como elas se articulam no cotidiano das escolas, ampliamos o repertório de gestores e educadores para a tomada de decisões mais informadas”, afirma Fabiana Prianti, head da B3 Social.
“Aprender matemática envolve o domínio de uma linguagem própria e também práticas sociais fundamentais para ampliar autonomia e fortalecer o aprendizado ao longo de toda a trajetória escolar. É muito importante que, ao falarmos sobre alfabetização, estejam contempladas as perspectivas de Língua Portuguesa e Matemática, de modo a garantir o aprendizado fundamental nessa etapa da vida”, diz Daniela Caldeirinha, VP de Relações Institucionais da Fundação Lemann.