Artigo | Correio Braziliense: Resultados do Censo Escolar exigem análise aprofundada
09/03/2026 06:00
Ernesto Martins Faria — diretor-fundador do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede)
A divulgação anual do Censo Escolar é um dos principais momentos para compreender a evolução da educação brasileira. Os dados são fundamentais para avaliar o cenário em relação a matrículas e perfis docentes, fluxo escolar e funcionamento das escolas. A edição mais recente, porém, trouxe questões que precisam ser analisadas com atenção.
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Outro indicador que chamou atenção foi a redução da distorção idade-série. Em princípio, trata-se de uma notícia positiva, pois sugere melhora no fluxo escolar. No entanto, a base longitudinal do Inep precisa ser explorada com atenção para verificar se parte dessa redução não está associada à saída de estudantes mais velhos da escola regular e à migração para a Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Um fator adicional dificulta o aprofundamento dessas análises: nos últimos anos, mudanças no formato de divulgação dos microdados do Censo Escolar, decorrentes da interpretação do Inep sobre a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), reduziram a possibilidade de acesso público a bases em que cada matrícula apareça como uma observação individual. Esse tipo de estrutura é essencial para que pesquisadores independentes possam examinar trajetórias escolares, identificar inconsistências e contribuir para o aprimoramento das estatísticas educacionais.
O Censo Escolar é uma das principais ferramentas de monitoramento das políticas educacionais brasileiras. Sua credibilidade depende não apenas da qualidade da coleta de dados, mas também da transparência e da possibilidade de escrutínio público. Diante das dúvidas levantadas sobre as matrículas, torna-se fundamental aprofundar as análises e garantir que os dados do Censo continuem sendo um instrumento confiável para acompanhar o direito à educação no país.