Pisa 2025: o que se pode dizer sobre o desempenho dos estados brasileiros?
Artigo de Ernesto Martins Faria, diretor-fundador do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), e Matheus Mascioli, diretor de dados do Iede
A divulgação do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2025 movimentou algumas redes estaduais de ensino no Brasil. Nos últimos dias, circularam comparações entre estados, inclusive sobre a diferença de desempenho entre estudantes das redes pública e privada. Embora seja natural e positivo que os indicadores educacionais recebam atenção, algumas das conclusões apresentadas no debate público atribuem aos números uma precisão que eles não têm. Mas, afinal, o que se pode concluir a partir dos dados do Pisa sobre as unidades da Federação do país?
O Pisa é uma avaliação amostral e, portanto, suas médias são estimativas sujeitas a erros. Por esse motivo, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulga, junto com as pontuações, os respectivos erros-padrão, que não são apenas um detalhe técnico, mas parte importante da informação. Uma média de 450 pontos com erro-padrão de 3 não significa o mesmo que uma média de 450 com erro-padrão de 10. Na prática, existe uma margem segura de valores em que o resultado da população-alvo deve estar, o chamado intervalo de confiança.
Esse cuidado é especialmente importante quando se pretende analisar a evolução dos estados. Observando apenas as médias de 2015 e 2025, seria possível construir narrativas de grandes avanços em várias unidades da Federação; quando se incorporam os erros-padrão das planilhas oficiais da OCDE, porém, a análise muda. Os intervalos de confiança dos dois anos se sobrepõem na grande maioria das comparações apresentadas nos gráficos (veja abaixo), o que impede a confirmação estatística de muitas variações que, à primeira vista, parecem expressivas.
A tentativa de criar rankings estaduais a partir da diferença entre as redes pública e privada é ainda mais problemática. Embora a amostra brasileira reúna mais de 30 mil estudantes, ela se torna muito menor quando dividida entre as 27 unidades da Federação e, novamente, entre escolas públicas e privadas. Em diversos estados, há poucas instituições e poucos estudantes da rede privada na amostra.
Esse ponto é fundamental porque, no Pisa, não basta contar o número de participantes, uma vez que a amostragem ocorre em duas etapas, com a seleção das escolas e, dentro delas, dos estudantes. Quando há poucas escolas privadas selecionadas em uma unidade da Federação, os erros-padrão das médias dessa rede podem ser extremamente elevados, gerando intervalos de confiança muito grandes, o que torna a construção de um ranking a partir desses dados um problema.
Longe de diminuir a relevância dos achados positivos do Pisa 2025, esses cuidados metodológicos ajudam a identificar o que os dados permitem afirmar e quais casos merecem ser acompanhados com mais atenção. Uma forma mais informativa de examinar o desempenho das redes é relacioná-lo ao ESCS, índice de nível socioeconômico utilizado pelo Pisa, revelando aspectos que uma simples ordenação das médias não consegue mostrar.
O Paraná é o principal destaque dessa leitura. O estado alcançou 462 pontos em ciências e 458 em leitura, tornando-se a primeira unidade da Federação brasileira a superar o patamar de 450 pontos e a apresentar um desempenho competitivo em uma perspectiva internacional. Além das pontuações absolutas, seus estudantes obtiveram médias superiores às esperadas considerando o nível socioeconômico da amostra. Trata-se de uma ótima notícia e de um caso que merece ser estudado, embora seja especialmente importante observar o Pisa 2028 para verificar se o estado confirma esse novo patamar.
São Paulo também apresenta um quadro interessante: seu desempenho está acima do esperado quando se considera o nível socioeconômico médio dos estudantes. Isso, contudo, não permite afirmar que houve avanço entre 2015 e 2025 em matemática e leitura, mas apenas em ciências. Uma coisa é reconhecer que o estado alcançou atualmente uma boa média, outra é demonstrar que melhorou ao longo de dez anos. O mesmo cuidado deve ser adotado na interpretação de supostos avanços ou quedas em outras unidades da Federação.
Rio Grande do Norte e Ceará contam outra história relevante em leitura. Embora suas médias estejam em um patamar baixo (400 e 395 pontos, respectivamente), ambas aparecem acima do esperado diante do contexto socioeconômico. Uma classificação baseada somente nas pontuações dificilmente chamaria atenção para esses dois estados, mas uma leitura que considere as condições de seus estudantes permite identificar esse diferencial.
Isso não prova que determinada política tenha causado os desempenhos observados, nem significa reduzir as expectativas para estudantes mais vulneráveis. Significa formular uma pergunta mais útil: diante da forte relação entre condições socioeconômicas e aprendizagem, quais sistemas alcançam médias superiores às verificadas em contextos semelhantes? Sob essa perspectiva, Paraná, São Paulo, Ceará e Rio Grande do Norte são casos que merecem investigação, ainda que o erro de medida precise ser considerado.
O Pisa 2025 trouxe boas notícias que precisam ser acompanhadas, estudadas e confrontadas com as próximas medições. A boa leitura dos dados educacionais exige combinar entusiasmo diante de achados promissores com prudência para não afirmar mais do que as evidências permitem. Afinal, avaliações servem justamente para substituir impressões por evidências e não faz sentido utilizar uma das avaliações mais sofisticadas do mundo, abandonando seus cuidados estatísticos no momento de interpretar as informações. A amostra brasileira não oferece precisão suficiente para a elaboração de rankings por unidades da Federação, e os erros-padrão não podem ser tratados como nota de rodapé.
Esta análise também foi tema de uma reportagem no portal G1.


